Do meu jeito - Carmen Queiroz - 2004

Do meu jeito - Carmen Queiroz Do meu jeito, trabalho recém lançado pela cantora Carmen Queiroz, elucida a coerência da qualidade cancioneira do samba que se faz hoje, mesclando compositores de diversas épocas e tendências, além de variações estilísticas: do choro cantado ao samba-enredo, passando pelo partido alto e pela gafieira.

Desperta a atenção já de início a bela capa feita por Elifas Andreato. Uma vez colocado o CD para tocar, nota-se também o luxo dos arranjos, sob responsabilidade do violonista Edmilson Capelupi e de um time de músicos composto pelo próprio arranjador, Mauro Diniz (cavaquinho), Wilson das Neves (bateria), Roberto Marques (o trombone do samba por excelência) e a percussão de Marcos Esguleba, Trambique e Guello, além das participações especiais de músicos como Dirceu Leite ao clarinete, Ronaldo do Bandolim e Isaías Bueno.

Baseando-se na produção de cancionistas conhecidos como Geraldo Pereira, Paulo César Pinheiro e Chico Buarque à estirpe do atual cenário do samba, como Nei Lopes, Cláudio Jorge, Délcio Carvalho, Ivone Lara e Luiz Carlos da Vila, entre outros, o CD proporciona um panorama de repertórios consagrados e inéditos.

Do meu jeito é iniciado com Estrela cadente, samba de Cláudio Jorge e Nei Lopes. O arranjo gafieirístico da faixa - com direito ao trombone de Roberto Marques - adequa-se à cândida voz de pastora de Carmen, acompanhada esta nos refrões pelo coro feminino de Dorina, Tia Surica e Cidinha Zanon.

A canção buarquiana Novo amor, gravada por Clara Nunes em seu último disco de 1982, Nação - e posteriormente por Nana Caymmi, em 1996 - é relida aqui seguindo uma proposta similar à das interpretações anteriores: exaltando com ternura a alma feminina de Chico. Falando em Clara Nunes, aliás, percebe-se nitidamente a influência desta no trabalho de Carmen Queiroz, mediante três faixas do repertório já gravadas pelo canto da guerreira.

Carmen QueirozJamais, o sensível choro de Jacob do Bandolim com letra de Luiz Bittencourt e imortalizado na voz de Elizeth Cardoso, ganha o belo bandolim de Isaías Bueno de Almeida contracantando com a voz de Carmen e as baixarias das 7 cordas de seu irmão Israel - é a minha faixa preferida. O choro cantado faz-se presente também no inédito Teimosia, do compositor Ibys Maceioh.

Pedro Pedregulho, samba pouco conhecido de Geraldo Pereira, segue a mesma linha de outras composições suas narradoras do cotidiano de pitorescos personagens musicais e malandros da boemia carioca como Escurinho, Onde está a Florisbela e Até hoje não voltou. Voz e violão ressaltam a beleza da história narrada na letra desse samba.

Este CD, lançado de forma independente pela cantora, está à venda em seu site. Entre lá e veja como adquiri-lo. Aproveite a visita e ouça algumas faixas mp3 da íntegra de outros discos anterior de Carmen.

PS.: Carmen Queiroz estará no Traço de União, em São Paulo capital, nesta sexta-feira dia 04/06 no projeto “O Traço do Samba”, apresentando o show do CD. Altamente recomendado!

O choro nas eliminatórias do Prêmio Visa

Nesta segunda-feira, 31/5, serão iniciadas as apresentações das eliminatórias do 7º Prêmio Visa (edição instrumental) em São Paulo capital. Os demais candidatos serão distribuídos entres os outros quatro dias (8, 14, 16, e 21 de junho) de apresentação nesta fase de eliminatórias.

Como muitos viram na lista dos 24 classificados para o concurso, o choro estraá fortemente representado qualitativa e quantitativamente, apontando, em minha opinião, a consolidação do gênero associado à definição de música instrumental no Brasil. O júri da fase de eliminatórias é composto pelo maestro Nelson Ayres, Ulisses Rocha, Paulo Bellinati, Hamilton Godoy e Luciana Rabelo. Acompanhe a programação:

31 de maio: Alessandro Kramer (Santa Catarina), Ricardo Herz (São Paulo), Trio Curupira (São Paulo) e Marcus Moraes (Góias)
2 de junho: Irio Júnior (Minas Gerais), Mauricio Marques (Rio Grande do Sul), Triálogo (São Paulo), Alessandro Penezzi (São Paulo)

Os shows ocorrem no Espaço Promon (Juscelino Kubitschek, 1830, no Itaim) e as entradas sãogratuitas. Para assistir às apresentações, os interessados devem retirar convite no dia de cada apresentação, na bilheteria do local, a partir das 14h. Os shows começam às 21h.

Obra-prima a preço de banana

Capa genérica do CD que contém a obra Rapsódia BrasileiraHá algum tempo atrás escrevi sobre o disco , do virtuoso cantor pernambucano José Tobias. Gravado em 1984, trata-se de uma jóia rara da discografia nacional, não apenas pela beleza da voz deste, mas pela impecável produção artística de Hermínio Bello de Carvalho, os arranjos de Radamés Gnatalli e o acompanhamento de ninguém menos do que histórico conjunto de choro Camerata Carioca.

Coincidentemente tinha comentado esses dias nesta notícia da Agenda do Samba & Choro a respeito de um show seu no último sábado, do talento e voz ainda não reconhecidos de José Tobias, além da constatação de que, desde seu último disco - uma obra-prima datada de 20 anos atrás - ele não voltou a gravar ainda, apesar de estar em plena atividade artística.

Pois bem: fuçando discos ontem com meu amigo Heron na Discomania, na Rua Augusta, deparamo-nos com esse mesmo disco, no formato CD, novo (lacrado ainda), relançado por uma tal Inter-Records, só que escondido por uma capa genérica (daquelas bem mal feitas) e com escassas informações técnicas a respeito da obra. Ah, esqueci de falar o preço: R$ 4.

Por isso, atrevo-me a dar a seguinte ordem a todos os leitores paulistanos ou que estiverem de passagem por aqui: vá AGORA a essa loja e compre o CD. Já. Tem vários exemplares ainda, a esse preço ridículo. A remasterização até que ficou razoável, mas o que deixou a desejar foi a “picotagem” feita no CD: o responsável (alguém despreparado e sem conhecimento algum sobre a obra) separou em faixas os dois grandes movimentos, “Sertaneja” e “Modinheira”, mutilando as músicas para separá-las, descaracterizando assim o caráter de pout-pourri e a proposta de rapsódia.

Apesar dos pesares, pelo fato de Rapsódia Brasileira ser um LP raro hoje, todo mundo deveria tê-lo em sua discoteca básica.

P.S.: Não consigo me conformar com o fato de um artista desse quilate ser um verdadeiro anônimo no cenário musical. As gravadoras acéfalas investem milhões para fazer de marias ritas e demais cantoras de butique de repertórios ocos, as novas “divas da MPB” na base da martelada no ouvido, enquanto uma jóia de valor incalculável como José Tobias, com quase oitenta anos e ainda em atividade, tem de sobreviver cantando em restaurantes de Niterói. São burras demais para perceber o potencial dele em vir a ser um Ibrahim Ferrer brasileiro elevado ao quadrado. Ah, se eu fosse gerente de marketing de qualquer uma delas. Muita gente inútil iria pro olho da rua após os primeiros minutos de mandato - perdoem-me o desabafo: acho que só poderão entender a minha revolta ouvindo isto e isto (botão direito do mouse + “salvar como”).

O que vem por aí… (2)

Mais algumas imagens inéditas das dezenas que estarão em breve na galeria rotativa do Sovaco de Cobra, junto com outras novidades (passe o mouse em cima para ver as legendas).

Radamés Gnatalli, à esquerda, e Camerata Carioca
Luciana Rabello, João Lyra e Joel Nascimento, integrantes da Camerata Carioca

Violão amigo, cansado de guerra

O violão é, sem delongas, o instrumento número um deste país. Popular desde os tempos do Brasil colônia, quando vivia marginalizado, à sombra do repertório que se tocava na corte e de seus instrumentos de cordas dedilhadas, ousava ele imitar o romantismo musical daquela época, dando início assim ao surgimento da música popular. Só viria a entrar pela porta da frente das salas de concerto e teatros municipais no fim da segunda metade do século XX, superando a alcunha de instrumento de malandro.

É fato que quase toda residência brasileira possui um violão. Instrumento de custo acessível e de fácil transporte, não tinha como não se popularizar. É inevitável, porém: aqueles que se interessam um pouco mais pela sua magia e optam por se dedicar a ele são obrigados a investir em um instrumento que corresponda às necessidades técnicas de timbre, reverberação e ressonância. Isso implica de imediato em cuidados com o mesmo, de modo a preservar essas qualidades e prolongar sua vida útil. Mas nem sempre todos tomam os cuidados. Nem tanto por desleixo, mas principalmente por falta de informação.

Por isso, se você for violonista, profissional ou amador, ou conhece alguém próximo que seja, leia e/ou indique este artigo publicado no ótimo Violão Clássico Weblog, sobre os cuidados básicos e carinho que todo músico deve ter com seu amigo velho de guerra. Escrito num tom bem humorado e acessível por Ricardo Dias, o artigo enfatiza principalmente os cuidados que se deve ter ao tratar os estragos feitos pelo maior inimigo do violão: os arranhões de unhas.

Aproveite e fuce também as ótimas dicas postadas no blog sobre violão brasileiro.

40 anos de Época de Ouro

No programa Almanaque do canal por assinatura Globo News irá passar uma matéria sobre o histórico grupo de choro Época de Ouro, fundado por Jacob do Bandolim e atuante há 40 anos. A entrevista é de Luciana Ãvila. Anote o horário: hoje (de sábado para domingo) às 00:30. Horários alternativos: todos os dias desta semana às 12:30 e 18:30.

Update: Apesar de não ter mostrado nem acrescentado nada de diferente por se tratar de um programa de variedades, valeu a iniciativa pela divulgação do choro e deste grupo. Uma coisa, entretanto, chamou-me demais a atenção: enquanto os músicos falavam sobre Jacob, de repente mostraram pouco mais de 5 segundos de um vídeo antigo com Jacob, sendo entrevistado. Se alguém souber alguma referência sobre o mesmo, por favor avise aqui.

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Está fazendo anos hoje o amigo Paulo Eduardo Neves, criador da indispensável Agenda do Samba e Choro. Que a data seja comemorada com muita música aí no Rio!

Um violão tocado pelo avesso

Canhoto da ParaíbaCompletando 76 anos hoje, 19 de maio, Canhoto da Paraíba continua sendo mais um brilhante artista brasileiro que permanece distante de um reconhecimento à altura de sua importância para a história do choro e do violão nacional.

Francisco Soares de Araújo nasceu em Princesa Isabel (PB) em 1928 e iniciou sua carreira na Rádio Tabajara de João Pessoa, em 1953, mas foi em Recife que seu virtuoso violão, tocado ao contrário com toda uma técnica própria - sem inverter a ordem das cordas, como fazem usualmente os violonistas canhotos -, despontou de vez como um gênio compositor e instrumentista.

Devido a uma isquemia cerebral que lhe deixou o lado esquerdo do corpo paralisado, impossibilitando-o de tocar, em 1998, uma ação entre amigos foi organizada há três anos atrás para relançar em CD seu primeiro disco solo, Primeiro Amor, de 1968, com o propósito de ajudá-lo financeiramente.

Fora isso, soube que há dois anos o violonista pernambucano Caio Cézar vem realizando um trabalho de pesquisa sobre a obra violonística de Canhoto. Quem tiver notícias mais recentes a seu respeito, por favor me avise, ok?

10 anos sem Sergio Sampaio

Por um lapso sem justificativas de minha parte, acabei deixando passar uma lembrança importante no último dia 15/05 (agradeço ao amigo Marco de Menezes pelo toque): Há 10 anos ia para o andar de cima o compositor Sérgio Sampaio. Natural de Cachoeiro de Itapemirim (ES), começou sua carreira no início da década 70 como cantor, dividindo com Raul Seixas, Miriam Batucada e Eddy Star o disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez”. Seu maior sucesso comercial foi a música Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, com a qual classificou-se para o VII Festival Internacional na Canção, em 1972.

Em 1998 ocorreu o lançamento do CD Balaio do Sampaio, uma antologia póstuma, no Teatro Rival , no Rio de Janeiro. Lá estavam, entre outros, o filho do Sérgio (o menino João), os irmãos Caruso, Macalé, Luiz Melodia, Chico César, Zeca Baleiro, Marcos Sacramento, Simone Guimarães e vários sambistas e chorões, que proporcionaram à platéia um belo e emocionado show.

Para quem não conhece Sergio Sampaio e sua obra, há este site-tributo que contém sua biografia, discografia, letras e fotos inéditas.

Rua da Escadinha 162

Cena do documentário Rua da Escadinha 162Está disponível no site Porta Curtas Petrobrás para visualização em banda larga o excelente curta-metragem Rua da Escadinha 162, dirigido por Márcio Câmara em 2003.

O filme trata do acervo musical do pesquisador e musicólogo Christiano Câmara, localizado em Fortaleza, Ceará, que possui mais de 20 mil discos de cera, 10 mil vinis, 800 fotos, revistas e enciclopédias. Como não possui nenhuma espécie de apoio governamental ou subsídio, diariamente ele abre sua casa à comunidade interessada - gesto similar a esse eu só tinha visto até então partindo do colecionador octagenário Ronoel Simões, residente no bairro do Bixiga em São Paulo capital, dono do maior acervo sobre violão do mundo; falarei sobre ele em um próximo post.

Christiano Câmara é um homem de opiniões fortes e apaixonadas. Dele, partem afirmações que dão pano para muita discussão como a idéia de que música popular brasileira seja aquela que o povo realmente ouve, e não simplesmente a dos famosos da MPB, assim como a responsabilidade de Jacob do Bandolim por ter “sambeado” o choro e o questionamento da improvisação disciplinada do choro, diferente do jazz - que é livre, segundo ele: “Essa história de improvisação no choro é ótimo para quem está praticando e péssimo para quem está ouvindo.”

Assista ao documentário clicando neste link (na coluna esquerda da página, clique no botão “Assista”). Também costuma ser exibido no Canal Brasil, no programa “Curta na tela”. Para quem quiser conhecer melhor a polêmica figura de Christiano Câmara, sugiro a leitura desta entrevista de 1999, publicada no site Audio Dicas.

Agora - Bojo e Maria Alcina - Outros Discos - 2003

Agora - Bojo e Maria AlcinaUma seqüência eletrônica dançante dá início à terceira faixa do CD. De repente, uma voz sampleada dispersa uma espécie de mantra um tanto familiar. Pan pan pan, quem é que está batendo aí?”. Modulado o tom, um tamborim entra como base para a voz da polêmica diva Maria Alcina, que confirma o nostálgico samba de Paulo da Portela. A batucada é logo encorpada por sofisticados efeitos de música eletrônica.

Não, não se trata de uma brincadeira qualquer. Maria Alcina volta a ser evidência no disco Agora, lançado pelo selo independente Outros Discos, em parceria com o Bojo, conjunto instrumental brasileiro que mescla de forma virtuosística música eletrônica e MPB. Nascido de um festival do Sesc de música experimental, o trabalho fornece uma releitura inédita e criativa de rebuscadas pérolas da MPB de diversas épocas, além do composições inéditas do Bojo feitas sob medida para a interpretação da cantora.

Bate Balaio, de João Bosco, ganha as truncadas vocalises de Maria Alcina - extretamente à vontade para citar até Jackson do Pandeiro - potencializadas pelo contexto alternativo e contemporâneo dos sintetizadores do Bojo. Esse mesmo caráter eletrônico é empregado para reler o clássico dos Secos e Molhados Sangue latino, enfatizando a sensualidade da letra, e Filho Maravilha, de Jorge Benjor, lançado pela voz da cantora em 1973.

Bojo e Maria AlcinaEntretanto, o destaque vai para a divertida Eu dei. A inteligência e verve humorística de Alcina nesta carnavalesca marchinha “tecno” despontam ao dialogar com uma lasciva voz computadorizada à la “Trio Irakitan”, elevando ao cubo - sem cair na vulgaridade gratuita, porém - a malícia da letra de Ary Barroso. O obsceno “eu deeeeiii…” sussurado pela cantora, ao final da faixa, é chocante.

Bojo é um dos pioneiros na utilização da internet como meio de divulgação de seu trabalho, disponibilizando integralmente todos os seus discos em MP3 em seu site e incentivando o download. Nesta página é possível baixar a maioria das faixas desse disco. Infelizmente as editoras que controlam os direitos das faixas de outros autores não autorizaram a liberação das mesmas, mas ainda assim recomendo a audição das faixas do conjunto, como Kataflan e Agora - composta em homenagem à Maria Alcina.

P.S.: Bojo e Maria Alcina farão show desse disco no Sesc Pompéia, em São Paulo, no próximo fim-de-semana, dias 21 e 22 de maio. Veja a agenda das apresentações confirmadas. Sobre Maria Alcina e seu ressurgimento no meio musical, leia esta ótima entrevista da cantora recentemente concedida para o site Gafieiras.

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